terça-feira, 6 de março de 2012

Diálogos insanos de 3º grau

- Cara, esses dois últimos anos estão sinistros... Acho que tive mais empregos que o Henry Chinaski em “Factótum”...
- Quem é Henry Chinaski?
- Nunca leu Bukowski?
- Filho, enquanto tu tava lendo Bukowski eu tava pegando mulé no Bukowski.
- Se tu chama aquelas lá com quem eu costumo te ver de mulé...
- Mas barangueiro o tal do Bukowski também era, né?
- Verdade. Retire o que eu disse. Aquela velha história de que não existe mulher feia...
- Mas enfim... qual foi, tá rodando tanto por quê?
- Tudo me enche o saco muito rápido.
- ...
- Eu mando nego ir se foder muito rápido também... Da última vez reclamaram quando colei o panfleto do “Direito à Preguiça”, daquele francês Paul Lafargue, na parede do trabalho. Só isso deu mó confusão, de bobeira, e ter tirado as calças na sala do meu chefe também não ajudou...
- Brother, não sei se tu é maluco de verdade  ou gosta de polemizar.
- Um poucos dos dois. O grande diferencial entre uma pessoa é outra é a capacidade de jogar tudo pro alto.
- Tá todo filósofo viajandão, hein... Tava lendo “A Erva do Diabo”?
- Esse é um clássico.
- Eu só não li todo porque faltou seda e meu irmão arrancou umas páginas.
- Hahaha... Mas então, o Bukowski, ou seu alterego no livro, ou enfim, subsistia em empregos que não se interpunham entre ele e escrever. O maluco fazia de tudo, de cidade em cidade, no estilo “foda-se”, vamos beber, amanhã eu escrevo de ressaca.
- Mas e tu, vai trabalhar, virar escritor ou ficar de ressaca?
- A questão é que se eu trabalho pra valer eu não consigo escrever e se eu escrevo pra valer eu não consigo ganhar dinheiro. E se eu bebo pra valer não consigo fazer nenhum dos dois.
- Por isso que eu digo: tudo na vida é matemática. Resolver as equações é a parada. E às vezes, pra achar o x lá na frente, tu tem que se concentrar no y aqui atrás.
- Agora tu que filosofou, apesar de esse “y aqui atrás” ter soado meio viado. Mas tá certo. A vida é matemática, seja na vontade do homem de racionalizar o mundo ou na vontade do mundo de racionalizar o homem. Quem garante que aquela mulézinha que tu pegou no Bukowski não passou de um impulso químico-matemático do teu corpo, em vez de carência como tu alegou naquele dia? Já acharam até Deus por fórmula matemática.
- Cara, tu não tá puro com certeza. Qual o objetivo da vida pra você?
- O meu é conquistar 14 territórios, sendo pelo menos dois deles “galé”, e a Oceania. O seu eu não sei.
- Conversar contigo é mais difícil que entender a Teoria do Caos.
- Ou os Teoremas de Incompletude de Gödel. Decida-se e tire a sua carta: sorte ou revés?
- Mas então, mudando de assunto... Tu já viu aquele filme “Tomates Verdes Fritos”?
- Só vi até a parte do “verdes”... não cheguei a ver fritarem os tomates...
- Aí não adianta. Então me fala, o que você tá lendo agora?
- Tô relendo pela terceira vez um livro que nunca li, mas que tô gostando muito, apesar de ainda não ter começado: "Rubaiyat", do Omar Khayyam. É um poeta, matemático e astrônomo persa que viveu...
- Persa? Cara, por que tu não lê algo que tenha sido escrito pelo menos dos últimos mil anos pra cá... tá parecendo um ancião!
- Sou tão antigo e tão novo quanto a luz que nasce a cada dia...
- Que isso, brother? Tomou suco de clorofila com vodca?
- Tô numa onda meio poesia... Atualmente eu só leio poesia.
- Sério?
- Até remédio... só tomo remédios cuja bula rime.
- Tu é doente.
- Remédio serve pra isso.
- Mas tu tá escrevendo, afinal?
- Aos trancos e barrancos, até que tô. Tô inclusive já na 97ª página do que eu quero que seja o meu primeiro romance, apesar de estar lendo poesia. Só não tá tão adiantado porque tô escrevendo primeiro as páginas ímpares, pra só depois partir pras pares.
- Cara, o teu livro pode ser uma merda, mas isso daí é inédito.
- Pois é, não podem falar que eu não tô inovando a literatura.
- E já sabe qual seria o nome do livro, do que trata... ou do que não trata?
- O livro vai ser uma parada meio doida... meio que minha autobiografia não autorizada... o nome é “Eu sei o que o Woody Allen fez no verão passado”.
- “Autobiografia não autorizada” também é uma ideia nova...
- Minha ideia é juntar reminiscências ao roubo de citações e passagens de livros famosos, usando como se fossem minhas, com o objetivo de tentar ser processado e promover o livro. Foi a melhor estratégia de marketing que bolei até agora. E lançar essa porra toda logo num e-reader, com o texto todo hyperlinkado. Kafka fundou o imaginário moderno no século XX e a leitura no século XXI é toda fragmentada. A internet é cheia de hyperlinks, mas tu já leu um livro com hyperlinks? Um livro que toque música? Um livro que te faça um cafuné? Cafuné eu aceito até de iPad.
- Tu é mesmo revolucionário...
- Revolucionário até a página 2... quer dizer, a 3, já que a 2 eu ainda não escrevi. Mas o livro também tem pensamentos que podem ser considerados machistas, como o de que a principal característica que uma mulher precisa ter pra casar é saber fazer uma boa omelete.
- Cara, tu acha que vai conseguir concatenar todas essas ideias num mesmo livro? Woody Allen, omelete... tô achando a parada meio desconexa...
- Brother, a última coisa que eu penso quando escrevo é em fazer sentido.
- Agora tudo fez sentido.
- A única recomendação que eu sigo é a que ouvi de um professor certa vez, que é na verdade o maior conselho que um grande escritor pode dar a um aspirante à literatura: “Ao final de qualquer frase que seja uma pergunta, ponha um ponto de interrogação. É incrível o efeito que isso provoca”.

3 comentários:

  1. Cara, definitivamente vc é um genio...e como um, vc é extremamente alucinado...rs
    Muito bom o post

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  2. Se publicar o livro eu compro e anuncio no Blog ;)

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