sexta-feira, 27 de julho de 2012

Amor Além da Vida


Descobrira fazia 2 meses que seria vítima de morte de uma doença raríssima, ela penetrava nos ossos e praticamente os transformava em pó.
Tinha menos de 1 ano a mais de vida, era incontornável.
O acontecimento transformara a vida pelo acesso e, mesmo sempre sendo brincalhão e otimista, não conseguia mais esconder a profundidade de sua angústia. Tudo acabaria daqui a poucos meses, mas era preciso aceitar a morte. Mais do que isso, levantou a cabeça e decidiu que aceitaria a vida! Ou o resto que lhe sobrara de vida.
Havia feito amigos, amado, curtido, viajado, gastado e ganho. Viveu derrotas, mas acima de tudo era um vencedor. Em dado momento lhe veio a inspiração, aquilo que julgou ser o sentido do seu viver. Queria deixar sua semente no mundo. Seu legado, um filho, um elo.

Faria isso da melhor maneira e sem enganar a ninguém, a escolhida seria sua ex-mulher, agora já casada novamente. Chamou-a para um encontro. Ela não recusou de imediato, o carinho era de amizade, mas não fazia ideia do que estava por vir. Inicialmente, chorou inconsolável ao saber da doença, demorou a se acalmar, não acreditou, ninguém lidava bem com aquela notícia. No meio de um turbilhão de emoções cogitou em largar o marido para voltar e cuidar de sua antiga paixão, mas nada disse, se limitou a chorar. Sentia pena, tristeza.
Ele continuou, se fez de forte, já havia passado por muitas situações delicadas diversas vezes nesses 2 meses. Falou estar feliz na medida do possível, que já havia absorvido o golpe, então lhe explicou que ela deveria ser a mãe de seu filho. Fez isso sem suplicar, sem chorar, seu instinto escolhera assim. Ela calou-se. 2 dias depois conversariam de novo.

Santiago, o atual marido, estaria presente 2 dias depois como combinado, e tiveram uma conversa os 3.

Hugo, o filho, ouvira a história pela primeira vez, hoje já com 16 anos.

A princípio Hugo demorou a se situar, apesar de maduro para sua idade, psicologicamente não estava preparado, talvez nunca estivesse. Em dado momento quis saber do verdadeiro pai, como era, como havia morrido, o nome... Mas não tardou a perguntar aquela que seria a questão mais importante de sua vida até então, a razão de sua existência.

Santiago, pai de criação, absorvido por uma serenidade adquirida pelos anos de preparação e ensaio para o dia em que aquela conversa fosse feita, respondeu: meu filho, o fato de você não ser biologicamente meu nunca alterou em nada meus sentimentos por você, você sempre será meu filho. No dia em que encontrei aquele homem e rapidamente tomei conhecimento de sua proposta, minha primeira reação foi de revolta, mas então, olhando para aquele semblante percebi que falava sério. Não suplicou, não implorou, ele foi sincero e aquilo me acalmou, ele estava seguindo sua intuição. E então, fiz a ele a mesma pergunta que hoje você fez a mim. Porque dentre milhares de mulheres, ele escolheu justamente sua mãe?

Então filho, vou lhe responder da mesma maneira que ele me respondeu. Que de todas as mulheres que tivera, ela havia sido aquela que lhe despertara sua paixão, e que apesar de estarem separados, ela teria sido a única mulher que havia jurado protegê-la e que, naquele momento, ao saber da proximidade de sua morte havia descoberto um sentimento novo, o de querer viver. E, percebendo a ausência de sentido que tivera em toda a vida, teve certeza do que tinha que fazer e gostaria de deixar a única marca que considerava relevante em toda a sua vida. Um filho, fruto do mais puro amor.

Então Hugo, ouvindo pacientemente toda aquela explicação, não tive dúvidas, arrebentei a cara daquele sujeito no mesmo instante, o que foi irrelevante, o filho da puta já tinha plantado sua semente no dia anterior. Sua mãe também levou uma surra, mas eu gostava dela. O filho da puta morreu 3 meses depois.

2 comentários:

  1. tava indo muito bem, nao entendi o final, virou 1a pessoa?

    ResponderExcluir
  2. Sei lá se virou primeira pessoa, mas a primeira parte é na época do fdp e a segunda é a partir do paragrafo em que Hugo já tem 16 anos, hoje.

    ResponderExcluir