Em meio ao caos da arbitragem carioca, e por que não
brasileira, vou me manter alheio a essa discussão que se tornou mais evidente
no clássico carioca entre Vasco x Fluminense, que teve o time da Cruz-de-Malta
vencedor, num jogo até legalzinho pros padrões desse estadual.
Mas a questão que mais me inspirou a escrever esse post não
foi o “choro” tricolor, tampouco a classificação indiscutível do time da
colina, mas sim o outro lado do futebol, o lado da superação, da humildade, o
lado às vezes místico que envolve não só o futebol, mas o esporte.
Ontem foi realizada a final da Copa Africana de Nações, e
eu, obviamente, não perderia isso, pois além de um viciado em futebol,
acompanhei os principais confrontos. Não iria deixar de ver logo o derradeiro
embate.
No campo da cidade de Libreville, no Gabão, estavam lado a
lado duas realidades completamente distintas, que simbolizam a grande diferença
social, não só enfrentada por aquele continente, mas evidenciada como um todo
na realidade mundial. De um lado a seleção da Costa do Marfim, com jogadores
consagrados no futebol europeu, como Drogba, ídolo do milionário Chelsea da
Inglaterra, e outros como Kalou, Yaya Touré. Do outro lado do campo estava a
personificação da vontade, a Zâmbia. Time cujo elenco conta apenas com um
jogador que atua na primeira divisão europeia, e a maioria atua no futebol
local.
A diferença se via já no porte dos atletas, enquanto os
Elefantes (apelido da Costa do Marfim) tinham uma seleção forte, de jogadores
altos e bem nutridos, os Balas de Prata (apelido da Zâmbia) era composta por jovens
mirrados e franzinos. Um verdadeiro Davi contra Golias.
A campanha: Costa do Marfim ganhou todos e não tomou gols;
Zâmbia passou aos trancos e barrancos por adversários considerados superiores,
como Senegal e Gana, e com muito brio ali estava.
Bola rolando e o que se viu em campo foi o suprassumo da
vontade de vencer. Times partindo pra cima, chances dos dois lados, e a valente
Zâmbia segurando como podia as investidas de Drogba e cia. Até que um lance
poderia ter mudado toda uma história, e quando digo história falo do dia 27 de
abril de 1993.
Mas no capítulo da decisão, a tragédia parecia ser outra. Aos
25 minutos do segundo tempo, o juiz assinalou pênalti para a Costa do Marfim.
Todo suor zambiano parecia ter sido em vão. Então o melhor jogador do
continente africano, Drogba, partiu pra cobrança, e como num filme de suspense,
a bola delicadamente tomou o rumo pra longe do gol. Esperanças renovadas, Zâmbia
estava no jogo e agora tudo era possível.
O tempo normal acabou, a prorrogação se manteve no zero e a
dura realidade dos pênaltis veio a tona. Após oito cobranças de cada lado, com
toda a sua paciência e ponderação, o destino colocou nas mãos de Zâmbia o tão
sonhado e suado troféu de campeão.
O estádio, em sua grande maioria torcendo pelos Balas de
Prata, foi a loucura. Uma festa de emocionar até o mais duro coração. Era uma
felicidade pura, e que teve como grande inspiração, a visita que os jogadores e
comissão técnica fizeram a praia onde ocorreu o acidente, dias antes do jogo.
Como se cada flor jogada ao mar fosse um pulmão a mais para eles. Estava ali
não só um time, mas um país em catarse.
Uma lição de heroísmo de meninos que viraram homens, de um
país que resgatou sua autoestima, de uma luta por um alento no coração de um
povo, que foi representado a altura por jovens guerreiros.
Magnífico post. Certamente fiquei com vontade de ver esse jogo...
ResponderExcluirfoi um dos jogos mais vivos q já vi na minha vida
ResponderExcluirPorra..humor negro esse seu comentário, rsrsrs, pessoal de 1993 não curtiu não.
ExcluirEmocionante. Também fiquei com muita vontade de ver o jogo. E eu não tinha lido nenhuma notícia na mídia sobre essa final. Boa Mumu!
ResponderExcluirDepois dos leopardos do Zaire e dos elefantes da Costa do Marfu, dá-lhe balas de prata da Zâmbia, os matadores de lobisomens!
ResponderExcluirTodos chora...
ResponderExcluirJ.F.